sábado, 25 de julho de 2026

27.07

27.julho sempre me coroou como uma leonina. os astros diziam, nas revistas de adolescência que a mulher de leão lidera, tem autoestima elevada, protagonismo e bláblá. sempre foi difícil encaixar quem vejo no espelho nessa ideia-egocêntria.

mas a verdade é que a astrologia nunca me ensinou o que realmente sei sobre mim. aprendi na marra. aprendi em todas as vezes em que não fui escolhida, lembrada ou percebida. a astrologia não me ensinou nada sobre a rejeição, sobre ser uma menina magricela negra em uma escola de periferia, não me ensinou que eu não servia para educação fisica, não me ensinou que iriam querer me beijar escondido, não me ensinou que eu teria que trabalhar pra caralho se quisesse gostar minimamente da imagem do espelho. a autoestima delirante é sempre um exercicio de poder que eu faço vez ou outra como brincadeira. eu preciso amar essa imagem do espelho, caso contrário, ninguém mais irá.

a autoestima delirante nunca foi um traço da minha personalidade. sempre foi um exercício de sobrevivência. um pequeno ato de poder que pratico vez ou outra, quase como uma brincadeira. porque eu preciso amar essa imagem que me encara todas as manhãs. só existe essa opção.

então outro aniversário aparece dobrando a esquina. a astrologia reaparece com sua coroa dourada, dizendo que a leonina protagonista voltou a brilhar em raios incandescentes. e eu sorrio. aceito essa balela por alguns instantes. não porque acredite completamente nela, mas porque sempre achei divertido.

os aniversários deixaram de ser amargos.

passei a ser esse raio de sol que mostra todos os dentes, passei a subir o cabelo o mais alto possível com pente garfo e deixar que a astrologia tenha alguma especie de razão algumas vezes no ano.

.amor.

 eu gosto quando o amor vem fácil. é gostoso. não gosto quando ele tira tudo do lugar, quando é incerto, quando é incomodo. eu gosto quando é acalento, quando é calmaria, não gosto quando é dúvida, quando é balanço, quando é corda bamba, passos no escuro sem saber onde tatear. eu gosto de tudo aquilo que me ama na ação. o amor em verbo é mais gostoso. eu gosto quando deleito na língua, quando toco, quando verbalizo sem medo, quando não tenho receio, quando é abraço. não gosto quando é espera, quando é silêncio, quando é montanha russa e acaba em solidão. eu gosto do amor, aprendi a gostar depois de muitos anos negando a existência desse amor feito para mim, por mim. algo que cabe no meu eu. 

e todas as vezes que me neguei amor parecem bobagem de um outro alguém. eu gosto do amor e bell hooks me ensinou essa versão minha que sempre tive medo de dizer. porque o amor sempre pareceu fragilidade, vulnerabilidade, sempre me pareceu negação, por isto, instalei o medo. é tão mais fácil instalar os medos de não ser querer algo, para se manter preservado. para se manter seguro. mares calmos são mais seguros. 

mas daí eu aprendi que gosto dos dois, dos amores calmos, dos amores de mar em calmaria. nada de grandes ondas que deslocam do meu lugar, nada que me faça rolar na cama aflita em saber se também sou amada. eu quero ter a certeza que estou pisando naquilo que também me quer. essa coisa de querer o incerto, eu deixo para vocês que gostam de redemoinho.

eu gosto do amor, mas eu gosto muito mais de mim desse jeitinho calmo, certo, corriqueiro e amado na certeza. 

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Penso nessa fadiga aguda, corriqueira e traiçoeira das interações humanas que me remexem por inteira e envolvem minhas entranhas. 

Penso nas estranhas coincidências. 

Penso nas idas e em todas as voltas, naquelas em que jurei serem a última vez e nas vezes em que, encantada que sou, me vi sentindo esse quente no peito. Penso que não sei como nomear sentimentos ambíguos que me envolvem no entardecer, e me entrego sem pensar e me arrependo. Sempre me arrependo. Pois tenho medo das interações, das idealizações que crio, das vontades que não nomeio, das certezas que, ao anoitecer, viram incertezas. Sobre esse sentimento, é sempre um redemoinho, revira tudo do lugar. Nunca estou no controle e sempre corro pelos corredores da minha mente em busca de controle. Eu sempre quero estar no controle e, talvez por isso, me sinta tão vulnerável, frágil e sem encontrar a porta de saída. 

Não sei se sou capaz de encontrar a porta de saída desta vez e por isso tenho medo.