sábado, 1 de agosto de 2026

o descortinar do mundo acontece de forma gradual, mas, na grande maioria das vezes, machuca de maneiras intrínsecas a condição humana. primeiro, o meu olhar diminui. fica pela metade. é sempre essa percepção de que estou vendo o mundo por uma janela quase aberta. incomoda. forço o olhar para adequar as rotinas ao meu redor e faço de conta que está tudo bem. porque eu aprendi a arte de mentir sorrisos. aprendi a solidão. 

depois, eu corro de um lado para o outro dentro da minha própria cabeça. com medo, com esperança, com vontade de mudar alguma coisa. na maioria das vezes, todas essas coisas ao mesmo tempo. preciso me sentir no controle outra vez. preciso exercitar essa autonomia e essa autoestima delirante que vesti por fotografias. e preciso lembrar de olhar para esse sentimento com desconfiança, quase com desprezo, porque, se eu me apegar demais a essa visão turva, a esse comodismo, a esse efeito coitada que encolhe meus passos e enfraquece a minha coragem, então eu sei exatamente o que acontece.

se eu aceitar tudo isso que a depressão, vez ou outra, me traz, vou acabar parada, assistindo à vida seguir enquanto tudo, lentamente, me engole.

e, porra, cansei dessa merda. 


sábado, 25 de julho de 2026

27.07

27.julho sempre me coroou como uma leonina. os astros diziam, nas revistas de adolescência que a mulher de leão lidera, tem autoestima elevada, protagonismo e bláblá. sempre foi difícil encaixar quem vejo no espelho nessa ideia-egocêntria.

mas a verdade é que a astrologia nunca me ensinou o que realmente sei sobre mim. aprendi na marra. aprendi em todas as vezes em que não fui escolhida, lembrada ou percebida. a astrologia não me ensinou nada sobre a rejeição, sobre ser uma menina magricela negra em uma escola de periferia, não me ensinou que eu não servia para educação fisica, não me ensinou que iriam querer me beijar escondido, não me ensinou que eu teria que trabalhar pra caralho se quisesse gostar minimamente da imagem do espelho. a autoestima delirante é sempre um exercicio de poder que eu faço vez ou outra como brincadeira. eu preciso amar essa imagem do espelho, caso contrário, ninguém mais irá.

a autoestima delirante nunca foi um traço da minha personalidade. sempre foi um exercício de sobrevivência. um pequeno ato de poder que pratico vez ou outra, quase como uma brincadeira. porque eu preciso amar essa imagem que me encara todas as manhãs. só existe essa opção.

então outro aniversário aparece dobrando a esquina. a astrologia reaparece com sua coroa dourada, dizendo que a leonina protagonista voltou a brilhar em raios incandescentes. e eu sorrio. aceito essa balela por alguns instantes. não porque acredite completamente nela, mas porque sempre achei divertido.

os aniversários deixaram de ser amargos.

passei a ser esse raio de sol que mostra todos os dentes, passei a subir o cabelo o mais alto possível com pente garfo e deixar que a astrologia tenha alguma especie de razão algumas vezes no ano.

.amor.

 eu gosto quando o amor vem fácil. é gostoso. não gosto quando ele tira tudo do lugar, quando é incerto, quando é incomodo. eu gosto quando é acalento, quando é calmaria, não gosto quando é dúvida, quando é balanço, quando é corda bamba, passos no escuro sem saber onde tatear. eu gosto de tudo aquilo que me ama na ação. o amor em verbo é mais gostoso. eu gosto quando deleito na língua, quando toco, quando verbalizo sem medo, quando não tenho receio, quando é abraço. não gosto quando é espera, quando é silêncio, quando é montanha russa e acaba em solidão. eu gosto do amor, aprendi a gostar depois de muitos anos negando a existência desse amor feito para mim, por mim. algo que cabe no meu eu. 

e todas as vezes que me neguei amor parecem bobagem de um outro alguém. eu gosto do amor e bell hooks me ensinou essa versão minha que sempre tive medo de dizer. porque o amor sempre pareceu fragilidade, vulnerabilidade, sempre me pareceu negação, por isto, instalei o medo. é tão mais fácil instalar os medos de não ser querer algo, para se manter preservado. para se manter seguro. mares calmos são mais seguros. 

mas daí eu aprendi que gosto dos dois, dos amores calmos, dos amores de mar em calmaria. nada de grandes ondas que deslocam do meu lugar, nada que me faça rolar na cama aflita em saber se também sou amada. eu quero ter a certeza que estou pisando naquilo que também me quer. essa coisa de querer o incerto, eu deixo para vocês que gostam de redemoinho.

eu gosto do amor, mas eu gosto muito mais de mim desse jeitinho calmo, certo, corriqueiro e amado na certeza. 

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Penso nessa fadiga aguda, corriqueira e traiçoeira das interações humanas que me remexem por inteira e envolvem minhas entranhas. 

Penso nas estranhas coincidências. 

Penso nas idas e em todas as voltas, naquelas em que jurei serem a última vez e nas vezes em que, encantada que sou, me vi sentindo esse quente no peito. Penso que não sei como nomear sentimentos ambíguos que me envolvem no entardecer, e me entrego sem pensar e me arrependo. Sempre me arrependo. Pois tenho medo das interações, das idealizações que crio, das vontades que não nomeio, das certezas que, ao anoitecer, viram incertezas. Sobre esse sentimento, é sempre um redemoinho, revira tudo do lugar. Nunca estou no controle e sempre corro pelos corredores da minha mente em busca de controle. Eu sempre quero estar no controle e, talvez por isso, me sinta tão vulnerável, frágil e sem encontrar a porta de saída. 

Não sei se sou capaz de encontrar a porta de saída desta vez e por isso tenho medo. 


domingo, 21 de junho de 2026

silêncio

 ouço por vezes o meu silêncio e ele é tão ensurdecedor. sento do lado de uma janela e a luz me toca e eu deixo. eu deixo. eu permito que o silêncio avance e ocupe cada lacuna do desperto inquieto do meu ser. o silêncio é como um frame piscando em uma tela e eu compreendo. me entendo nesse silêncio e sinto falta dele, em cada fôlego de vida. avanço por dentro de mim a passos incertos e entre uma sala e outra encontro uma parte de mim antes esquecida, mas me desperta. sou inquieta, mas entendo, finalmente entendo que sempre estive completa. não há nada incômodo no meu silêncio, pelo contrário. sou quem sou, feito dele. 


quarta-feira, 17 de junho de 2026

cotidiano que me faz sorrir

  • vi um senhorzinho segurando um cachorro grande no colo e, por um momento, o cachorro parecia sorrir com a língua de fora. o senhorzinho deu um beijo no doguinho bem na hora em que meu sorriso se alargou;
  • minha cachorra de roupinha de frio;
  • minha gata miando na minha janela e depois pedindo seu carinho matinal;
  • minha gata vesga olhando para a foto;
  • pessoas muito animadas dançando em um lugar com luzes coloridas;
  • salgadinhos de festa de graça;
  • minha psicóloga rindo muito comigo e me mandando um post do instagram;
  • pretinhas sendo amadas aos berros nas redes sociais no dia dos namorados;
  • um dia de sol e frio;
  • quermesses;
  • comidinhas de quermesses;
  • quadros bonitos que minha mãe pintou;
  • eu listando os sorrisos que dei na semana, porque me abraçar sem medo me sublinha em papel-presente dentro de mim e eu nem lembro que odeio meu psiquiatra.

segunda-feira, 25 de maio de 2026

SUSSURRO

o sussurro estranho de quem, outrora, navegou tempo demais por mares inquietos.

escuto o gotejar do mar do lado de fora da embarcação. estou afundando. a água entrando… ou saindo? estou me afogando ou submergindo? 

tempo demais apequenando o convés da própria bandeira, tempo demais à deriva entre marés que não cessam.

virá a terra firme?

Está tão perto. Cada vez mais perto.
Tão, tão perto…

Desperto.

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

poema da sanidade

Pequenos e grandes terremotos
dentro de si
Se desfaz em mil pedaços
enquanto a melancolia entra
por cada fresta.

O peito, em ansiedade,

sufoca em falta de ar
será a asma
ou o medo antigo
de nunca vencer na vida?

 

A ansiedade a acorrenta.
Se vencê-la e ainda assim perder,
os piores medos se concretizam:
a certeza de ser uma perdedora.
Talvez seja só a manhã sólida
rodando o relógio rápido demais,
fazendo o dia virar noite
antes que vença os próprios movimentos.

Procrastina.
O nada vira exuberância.
O ano começa no aniversário
com a pilha de roupas,
a pilha de pensamentos
se acumulando...

Na manhã, todos os movimentos
ficam perceptíveis demais.
O mundo pesa.
A cabeça pesa.
Por ter nascido mulher e preta,
o medo nunca foi novidade

Na escrita, exacerba o derramar do âmago.
Pensa em gritar, pela primeira vez.
Mas as quatro paredes do escritório a impedem.
O chefe. A colega.
Os e-mails chegando aos montes.
Os boletos. As faturas.
A sobrevivência.
Tudo a impede de fugir.

Algo sempre arrasta.

Esse estranhamento de si
volta com frequência assustadora.
Talvez tudo seja lembrança
de uma velha grisalha
folheando fotografias.
Talvez seja só preciso
voltar a obedecer.
Concordar.
Balançar a cabeça.

Duela com demônios
Tenta desfazer o caminho
de volta à depressão.
Entende que precisa ser exigente,

porque leve nunca consegue ser.

 Os ombros doem

A postura não se ajeita
O olhar não se enquadra
O ar é frio demais
ou quente demais
O coração dispara ao ouvir o próprio nome
Tudo parece prestes a explodir

A depressão festeja as lágrimas
engole quando desiste do prazer
espera que você odeie tudo,
todos,
que enlouqueça

E então,
a vida corre no calendário


Se vê de fora,
criatura medonha na vitrine do próprio julgamento.
sua juíza mais cruel
Existem lacunas,
um distanciamento sorrateiro de si

Navega por mares rasos
Círculos confortáveis entristecem
Mãos atadas
A velha paixão exaurida

Odeia o tempo
Mas é obcecada por relógios
Odeia a impotência diante do tempo
Quer não mais habitar esse lugar

Gritos mudos sobrevoam sua cabeça

Fecha e abre abas,
sempre de olho no relógio,
como se travasse uma guerra
contra os minutos

O dia escorreu por seus dedos

Negou-se o descanso
Negou-se os elogios
Nunca entendeu o próprio merecimento
Desceu alguns degraus
em direção à loucura
O olhar cansou
Morreu a menina

Tenta se lembrar
se aproveita o tempo certo
Provavelmente não
Poucas vezes relaxou
É tudo culpa do relógio

Deita em posição fetal
na cama torta,
ao lado da parede com mofo
Permite que a hora avance

Não sabe quem deveria ser
Queria o tempo nas mãos
Os pensamentos se nublam

Conhece cada canto
do lugar escuro da própria mente
Morou ali tempo demais
Odeia cada centímetro,
mas é cansativo sair.
Esse lugar a engole

Não pode dar passo em falso
Tudo pode desmoronar
O grito sobe do peito à garganta
O ponto de ruptura se alastra
Há um ponto cego em seus passos

A própria existência a estranha
Exige demais
Entrega seus prazeres e dores
Quer nunca mais sentir medo
Quer não se sabotar tanto
Quer libertar a versão enclausurada
na cadeira de escritório

Julga ter falhado em tudo
É massacrante
Uma hora vai dar certo
Talvez não dê tempo

Quer um intervalo
entre a ansiedade de ontem
e a de hoje

Não há linha de chegada
Em estado de alerta permanece
Não quer se acostumar

Inspira o desassossego

da parede dessa mente

 Existe uma cicatriz na mão esquerda

Um lembrete
E toda vez que algo externo acontece,
ela se cala.
Engole a raiva
Conta os segundos

Dentro de uma bolha cínica

moldou o próprio mundo
A inércia não é aceita
O ócio é crime
O relógio é erva daninha,
lembrança viva
de que o tempo acaba

Máquina de moer
cada resquício
de sanidade


quinta-feira, 27 de novembro de 2025

O tempo chegou

 O sussurro estranho de quem navegou tempo demais por mares inquietos, onde se escuta o gotejar do mar fora da embarcação. 

Está entrando água? Ou saindo? Estou afogando ou submergindo? Tempo demais apequenando pensamentos no convés dessa trajetória. 

A bandeira balança, anunciando a mudança dos ventos. A terra está perto. Tão perto, tão mais perto.

Desperto.

segunda-feira, 11 de agosto de 2025

ouvir

01hr da manhã/terça

ouvir meus medos. 

ouvir e obedecer o que me aflige. o que me cerca. me proteger. não tentar ser forte o tempo todo. desistir. 

tudo o que me move é realizar sonhos. 

cubículos estranhos me mantém parada, estagnada, esgotada. me ouço, me reconheço, sei até onde posso ir. já não posso mais ficar amarrada à acenos bobos, obedeço à mim. sou o que realmente importa. tudo o que me suga me destrói. 

mas eu não vou deixar ficar esse nó na garganta.


quinta-feira, 1 de maio de 2025

janela cínica

 a decrépita manhã insiste em nascer outra vez. organizo em tópicos meus afazeres do cotidiano. manter funcionando esse corpo que habito. mas sei que algo está errado. entre passos incertos chego até esse lugar que reconheço e não gosto de estar. conheço cada centímetro daqui, passei muito tempo nesse lugar. da janela cínica vejo o mundo parcialmente, bem pela metade mesmo. a pálpebra caída, o sorriso que não toca meu olhar, essa sensação de que tudo é incômodo, rápido demais, falante demais. busco ar. quero silêncio. me distanciar. 

e então volta os remédios, a terapia, o cansaço de saber que voltei casas nesse jogo, desci degraus, estou nesse lugar de novo. frustrante, soa fraqueza, soa infantil, soa meu pior eu. parece que posso controlar, mas não posso. nunca pude e daí resta a culpa. o gosto amargo na boca de saber os padrões, questionamentos aqui e acolá e eu sem conseguir me ver de novo no espelho. 

eu que sou tão vigilante comigo mesma. estou sempre apontando todos os dedos para essa medíocre criatura que sou. e peguei no flagrante quando caí dessa vez. parabéns você deixou o patético algoz da inquietude te amordaçar outra vez. quantas vezes você não vai crescer o suficiente? você é só uma falha. peguei aqui a senha para o fim do mundo. 

deve ser bom viver uma vida sem conhecer esse lugar onde estou de novo. 



quarta-feira, 2 de abril de 2025

Houve vértebras,

Incertas,

cálices e caule.

desabrochou de dentro de mim
surgiu criatura nova.

Entre veias,
vigas,
vozes,
arranhou a garganta
como quem, em suave recolher,
arrisca o olhar
na ponta da vareta
e vê
o outro lado do que é belo.

Sorriu.

terça-feira, 21 de janeiro de 2025

janeiro/2025

estranha estrada do desassossego. fernando pessoa estava certo. 

o coração dispara, a inquietação se instala. tudo me dá vertigem. essa pressa louca. essa quentura das entranhas que se remexem. esse silêncio rouco. essa gritante vontade de pressa. 

travo as unhas na carne da mão. sinto a dor me reconhecer. sinto a estranheza de sentir o coração na boca. 

quero sair desse casulo sufocante que não pertenço. estive aqui tempo demais. incomoda. 

sou outra alguém. as rachaduras viraram buracos grandes demais. entram luz. e quando olho essa luz. quero estar lá fora.