domingo, 21 de junho de 2026

silêncio

 ouço por vezes o meu silêncio e ele é tão ensurdecedor. sento do lado de uma janela e a luz me toca e eu deixo. eu deixo. eu permito que o silêncio avance e ocupe cada lacuna do desperto inquieto do meu ser. o silêncio é como um frame piscando em uma tela e eu compreendo. me entendo nesse silêncio e sinto falta dele, em cada fôlego de vida. avanço por dentro de mim a passos incertos e entre uma sala e outra encontro uma parte de mim antes esquecida, mas me desperta. sou inquieta, mas entendo, finalmente entendo que sempre estive completa. não há nada incômodo no meu silêncio, pelo contrário. sou quem sou, feito dele. 


quarta-feira, 17 de junho de 2026

cotidiano que me faz sorrir

  • vi um senhorzinho segurando um cachorro grande no colo e, por um momento, o cachorro parecia sorrir com a língua de fora. o senhorzinho deu um beijo no doguinho bem na hora em que meu sorriso se alargou;
  • minha cachorra de roupinha de frio;
  • minha gata miando na minha janela e depois pedindo seu carinho matinal;
  • minha gata vesga olhando para a foto;
  • pessoas muito animadas dançando em um lugar com luzes coloridas;
  • salgadinhos de festa de graça;
  • minha psicóloga rindo muito comigo e me mandando um post do instagram;
  • pretinhas sendo amadas aos berros nas redes sociais no dia dos namorados;
  • um dia de sol e frio;
  • quermesses;
  • comidinhas de quermesses;
  • quadros bonitos que minha mãe pintou;
  • eu listando os sorrisos que dei na semana, porque me abraçar sem medo me sublinha em papel-presente dentro de mim e eu nem lembro que odeio meu psiquiatra.

segunda-feira, 25 de maio de 2026

SUSSURRO

o sussurro estranho de quem, outrora, navegou tempo demais por mares inquietos.

escuto o gotejar do mar do lado de fora da embarcação. estou afundando. a água entrando… ou saindo? estou me afogando ou submergindo? 

tempo demais apequenando o convés da própria bandeira, tempo demais à deriva entre marés que não cessam.

virá a terra firme?

Está tão perto. Cada vez mais perto.
Tão, tão perto…

Desperto.

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

poema da sanidade

Pequenos e grandes terremotos
dentro de si
Se desfaz em mil pedaços
enquanto a melancolia entra
por cada fresta.

O peito, em ansiedade,

sufoca em falta de ar
será a asma
ou o medo antigo
de nunca vencer na vida?

 

A ansiedade a acorrenta.
Se vencê-la e ainda assim perder,
os piores medos se concretizam:
a certeza de ser uma perdedora.
Talvez seja só a manhã sólida
rodando o relógio rápido demais,
fazendo o dia virar noite
antes que vença os próprios movimentos.

Procrastina.
O nada vira exuberância.
O ano começa no aniversário
com a pilha de roupas,
a pilha de pensamentos
se acumulando...

Na manhã, todos os movimentos
ficam perceptíveis demais.
O mundo pesa.
A cabeça pesa.
Por ter nascido mulher e preta,
o medo nunca foi novidade

Na escrita, exacerba o derramar do âmago.
Pensa em gritar, pela primeira vez.
Mas as quatro paredes do escritório a impedem.
O chefe. A colega.
Os e-mails chegando aos montes.
Os boletos. As faturas.
A sobrevivência.
Tudo a impede de fugir.

Algo sempre arrasta.

Esse estranhamento de si
volta com frequência assustadora.
Talvez tudo seja lembrança
de uma velha grisalha
folheando fotografias.
Talvez seja só preciso
voltar a obedecer.
Concordar.
Balançar a cabeça.

Duela com demônios
Tenta desfazer o caminho
de volta à depressão.
Entende que precisa ser exigente,

porque leve nunca consegue ser.

 Os ombros doem

A postura não se ajeita
O olhar não se enquadra
O ar é frio demais
ou quente demais
O coração dispara ao ouvir o próprio nome
Tudo parece prestes a explodir

A depressão festeja as lágrimas
engole quando desiste do prazer
espera que você odeie tudo,
todos,
que enlouqueça

E então,
a vida corre no calendário


Se vê de fora,
criatura medonha na vitrine do próprio julgamento.
sua juíza mais cruel
Existem lacunas,
um distanciamento sorrateiro de si

Navega por mares rasos
Círculos confortáveis entristecem
Mãos atadas
A velha paixão exaurida

Odeia o tempo
Mas é obcecada por relógios
Odeia a impotência diante do tempo
Quer não mais habitar esse lugar

Gritos mudos sobrevoam sua cabeça

Fecha e abre abas,
sempre de olho no relógio,
como se travasse uma guerra
contra os minutos

O dia escorreu por seus dedos

Negou-se o descanso
Negou-se os elogios
Nunca entendeu o próprio merecimento
Desceu alguns degraus
em direção à loucura
O olhar cansou
Morreu a menina

Tenta se lembrar
se aproveita o tempo certo
Provavelmente não
Poucas vezes relaxou
É tudo culpa do relógio

Deita em posição fetal
na cama torta,
ao lado da parede com mofo
Permite que a hora avance

Não sabe quem deveria ser
Queria o tempo nas mãos
Os pensamentos se nublam

Conhece cada canto
do lugar escuro da própria mente
Morou ali tempo demais
Odeia cada centímetro,
mas é cansativo sair.
Esse lugar a engole

Não pode dar passo em falso
Tudo pode desmoronar
O grito sobe do peito à garganta
O ponto de ruptura se alastra
Há um ponto cego em seus passos

A própria existência a estranha
Exige demais
Entrega seus prazeres e dores
Quer nunca mais sentir medo
Quer não se sabotar tanto
Quer libertar a versão enclausurada
na cadeira de escritório

Julga ter falhado em tudo
É massacrante
Uma hora vai dar certo
Talvez não dê tempo

Quer um intervalo
entre a ansiedade de ontem
e a de hoje

Não há linha de chegada
Em estado de alerta permanece
Não quer se acostumar

Inspira o desassossego

da parede dessa mente

 Existe uma cicatriz na mão esquerda

Um lembrete
E toda vez que algo externo acontece,
ela se cala.
Engole a raiva
Conta os segundos

Dentro de uma bolha cínica

moldou o próprio mundo
A inércia não é aceita
O ócio é crime
O relógio é erva daninha,
lembrança viva
de que o tempo acaba

Máquina de moer
cada resquício
de sanidade


quinta-feira, 27 de novembro de 2025

O tempo chegou

 O sussurro estranho de quem navegou tempo demais por mares inquietos, onde se escuta o gotejar do mar fora da embarcação. 

Está entrando água? Ou saindo? Estou afogando ou submergindo? Tempo demais apequenando pensamentos no convés dessa trajetória. 

A bandeira balança, anunciando a mudança dos ventos. A terra está perto. Tão perto, tão mais perto.

Desperto.

segunda-feira, 11 de agosto de 2025

ouvir

01hr da manhã/terça

ouvir meus medos. 

ouvir e obedecer o que me aflige. o que me cerca. me proteger. não tentar ser forte o tempo todo. desistir. 

tudo o que me move é realizar sonhos. 

cubículos estranhos me mantém parada, estagnada, esgotada. me ouço, me reconheço, sei até onde posso ir. já não posso mais ficar amarrada à acenos bobos, obedeço à mim. sou o que realmente importa. tudo o que me suga me destrói. 

mas eu não vou deixar ficar esse nó na garganta.


quinta-feira, 1 de maio de 2025

janela cínica

 a decrépita manhã insiste em nascer outra vez. organizo em tópicos meus afazeres do cotidiano. manter funcionando esse corpo que habito. mas sei que algo está errado. entre passos incertos chego até esse lugar que reconheço e não gosto de estar. conheço cada centímetro daqui, passei muito tempo nesse lugar. da janela cínica vejo o mundo parcialmente, bem pela metade mesmo. a pálpebra caída, o sorriso que não toca meu olhar, essa sensação de que tudo é incômodo, rápido demais, falante demais. busco ar. quero silêncio. me distanciar. 

e então volta os remédios, a terapia, o cansaço de saber que voltei casas nesse jogo, desci degraus, estou nesse lugar de novo. frustrante, soa fraqueza, soa infantil, soa meu pior eu. parece que posso controlar, mas não posso. nunca pude e daí resta a culpa. o gosto amargo na boca de saber os padrões, questionamentos aqui e acolá e eu sem conseguir me ver de novo no espelho. 

eu que sou tão vigilante comigo mesma. estou sempre apontando todos os dedos para essa medíocre criatura que sou. e peguei no flagrante quando caí dessa vez. parabéns você deixou o patético algoz da inquietude te amordaçar outra vez. quantas vezes você não vai crescer o suficiente? você é só uma falha. peguei aqui a senha para o fim do mundo. 

deve ser bom viver uma vida sem conhecer esse lugar onde estou de novo. 



quarta-feira, 2 de abril de 2025

Houve vértebras,

Incertas,

cálices e caule.

desabrochou de dentro de mim
surgiu criatura nova.

Entre veias,
vigas,
vozes,
arranhou a garganta
como quem, em suave recolher,
arrisca o olhar
na ponta da vareta
e vê
o outro lado do que é belo.

Sorriu.

terça-feira, 21 de janeiro de 2025

janeiro/2025

estranha estrada do desassossego. fernando pessoa estava certo. 

o coração dispara, a inquietação se instala. tudo me dá vertigem. essa pressa louca. essa quentura das entranhas que se remexem. esse silêncio rouco. essa gritante vontade de pressa. 

travo as unhas na carne da mão. sinto a dor me reconhecer. sinto a estranheza de sentir o coração na boca. 

quero sair desse casulo sufocante que não pertenço. estive aqui tempo demais. incomoda. 

sou outra alguém. as rachaduras viraram buracos grandes demais. entram luz. e quando olho essa luz. quero estar lá fora. 

quinta-feira, 9 de janeiro de 2025

Penso no fim deste mundo

E, em silêncio, ouço minha ansiedade.
Carrego em mim tanta necessidade,
Tanta correria...
Que teimosia.

Vai acabar,
O mundo...
Pra que tanta correria?
Penso no denso descanso,

Mas, quando me canso,
A ansiedade me toma, não deixa.
Não me deixa dormir,
Pois temo tudo ruir.
Tenho medo do fim do mundo.

Mas me lembro que é o fim das pessoas 

Não do mundo. 

sábado, 23 de novembro de 2024

Incessante luz
desencadeou meu coexistir,
nessa longínqua estrada
do desinquieto.

Sede por mim
transborda, inunda, invade—
mas sucumbir, nunca.
Nunca foi opção.

Retorno.
Emergir, existir
para além do fundo,
do fundo de mim mesma.
Tomar ar.

Reviver.
Curar cicatrizes, aliviar dores do passado.
Estou do outro lado,
e daqui balanço os ombros,
abraço o meu perdão,
e beijo as feridas.

E não—
não aceito ser outra.

terça-feira, 24 de setembro de 2024

porta

(...) devagar abriu a porta de casa e sentou na cadeira posta na calçada.

puxou seu baeta para cobrir os olhos e fingiu cochilar, mas com rabo de olho observou a viúva passando com seu rebolado. 

"êtaviuvaboa"

"o que disse seu velho?"

"é uva da boa" — emendou com uma risada. 

"tome tento, seu João" 

sorriu e voltou a encostar a coluna na parede. de longe avistou sua menina:

"vá tomar banho. se arrumar, ficar bonita. hoje o pai vai te levar para passear, minha menina"

e ela foi saltitante pra dentro de casa. e sorriu de novo. hoje não teve vontade chorar. 

o velho pai da menina não se trancou. não chorou. não assustou a menina. estava tudo bem.

sexta-feira, 6 de setembro de 2024

estou sempre com medo de estar perdendo algo lá fora.

constantemente estou atualizando redes sociais, buscando informações, buscando entretenimento, saber o assunto do momento, estar disponível para ler, interpretar, criar opinião. ocupar minha mente. o tempo ocioso é recriminado; a inércia não é aceita. preciso estar em movimento. preciso? 

dormi tarde demais. erro. acordei tarde demais. erro. fiquei 53 minutos parada sem fazer nada. erro. não aproveitei cada segundo do tempo livre. erro. não me atualizei, erro. fechei o aplicativo. erro. não abri o aplicativo. erro. 

mas será que realmente eu preciso estar tão conectada? tão aflita com o que anda acontecendo no mundo? na esquina de casa, na roda de conversas ao lado, na mente das pessoas?

como uma erva daninha o relógio incita minha ansiedade por mais. movimento. constante movimento de que "vai acabar e você não aproveitou", mas acabar o que? seus dias, seus anos, sua juventude, sua saúde, seus planos, sua expectativa de vida. 

respira. respiro. concordo com o ato de desconectar minha mente só um pouquinho. só um pouco antes que tudo vire uma máquina de moer cada resquício da minha sanidade.