27.julho sempre me coroou como uma leonina. os astros diziam, nas revistas de adolescência que a mulher de leão lidera, tem autoestima elevada, protagonismo e bláblá. sempre foi difícil encaixar quem vejo no espelho nessa ideia-egocêntria.
mas a verdade é que a astrologia nunca me ensinou o que realmente sei sobre mim. aprendi na marra. aprendi em todas as vezes em que não fui escolhida, lembrada ou percebida. a astrologia não me ensinou nada sobre a rejeição, sobre ser uma menina magricela negra em uma escola de periferia, não me ensinou que eu não servia para educação fisica, não me ensinou que iriam querer me beijar escondido, não me ensinou que eu teria que trabalhar pra caralho se quisesse gostar minimamente da imagem do espelho. a autoestima delirante é sempre um exercicio de poder que eu faço vez ou outra como brincadeira. eu preciso amar essa imagem do espelho, caso contrário, ninguém mais irá.
a autoestima delirante nunca foi um traço da minha personalidade. sempre foi um exercício de sobrevivência. um pequeno ato de poder que pratico vez ou outra, quase como uma brincadeira. porque eu preciso amar essa imagem que me encara todas as manhãs. só existe essa opção.
então outro aniversário aparece dobrando a esquina. a astrologia reaparece com sua coroa dourada, dizendo que a leonina protagonista voltou a brilhar em raios incandescentes. e eu sorrio. aceito essa balela por alguns instantes. não porque acredite completamente nela, mas porque sempre achei divertido.
os aniversários deixaram de ser amargos.
passei a ser esse raio de sol que mostra todos os dentes, passei a subir o cabelo o mais alto possível com pente garfo e deixar que a astrologia tenha alguma especie de razão algumas vezes no ano.
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