quinta-feira, 1 de maio de 2025

janela cínica

 a decrépita manhã insiste em nascer outra vez. organizo em tópicos meus afazeres do cotidiano. manter funcionando esse corpo que habito. mas sei que algo está errado. entre passos incertos chego até esse lugar que reconheço e não gosto de estar. conheço cada centímetro daqui, passei muito tempo nesse lugar. da janela cínica vejo o mundo parcialmente, bem pela metade mesmo. a pálpebra caída, o sorriso que não toca meu olhar, essa sensação de que tudo é incômodo, rápido demais, falante demais. busco ar. quero silêncio. me distanciar. 

e então volta os remédios, a terapia, o cansaço de saber que voltei casas nesse jogo, desci degraus, estou nesse lugar de novo. frustrante, soa fraqueza, soa infantil, soa meu pior eu. parece que posso controlar, mas não posso. nunca pude e daí resta a culpa. o gosto amargo na boca de saber os padrões, questionamentos aqui e acolá e eu sem conseguir me ver de novo no espelho. 

eu que sou tão vigilante comigo mesma. estou sempre apontando todos os dedos para essa medíocre criatura que sou. e peguei no flagrante quando caí dessa vez. parabéns você deixou o patético algoz da inquietude te amordaçar outra vez. quantas vezes você não vai crescer o suficiente? você é só uma falha. peguei aqui a senha para o fim do mundo. 

deve ser bom viver uma vida sem conhecer esse lugar onde estou de novo.